Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nota de Página

Críticas literárias, opiniões, amores e desamores duma apaixonada da palavra impressa.

Nota de Página

Críticas literárias, opiniões, amores e desamores duma apaixonada da palavra impressa.

23 anos de magia

Junho 26, 2020

RCurvacheiro

IMG_20200626_120026_422.jpg

 

Faz hoje 23 anos era publicada a primeira edição de um livro infantil que viria a mudar a História da Literatura.
Uma edição pequena, que as crianças já não querem saber de ler!
Eu não era, definitivamente, o público alvo. Mas, como Book Nerd que sou, ao dar-me conta do burburinho que a obra provocava lá fora, acabei por comprar. "Um dia, que não tenha nada para ler, pego nele", pensei. Pouco tempo depois tive uma das minhas habituais sessões de insónias. Às duas da manhã, ainda sem vestígios de sono, peguei naquele "Harry Potter e a Pedra Filosofal" porque, como é sabido, histórias infantis chamam o sono. Às 8 da manhã obriguei-me a poisar o livro, a poucas páginas de o acabar, porque queria estar bem desperta para o final do que fora uma leitura magnífica.
Continuo a adorar mergulhar neste mundo e continuo a surpreender-me com a excelência da escrita e do enredo.
23 anos depois, ainda retorno à criança que fui.

E o que é que eu vou fazer esta noite?

Maio 18, 2020

RCurvacheiro

Hoje acordei com uma dúvida que vai em sentido completamente oposto à certeza que tenho tido ao longo das últimas semanas.  Não sei o que vou fazer esta noite!  
É que, sabem?, eu era uma das assíduas do "Como é que o Bicho Mexe", do Corpodormente, desde o início...  Na livraria atendi quer o Bruno Nogueria quer o Markl (sempre simpáticos e low-key, nem uma Cona para amostra!) e era com alguma cumplicidade que me sentava em frente ao ecrã do telemóvel para os ver.  Estava lá quando ainda se falava em punhetas abstractas a pouco mais de vinte mil "familiares".  Sim, éramos muitos, mas éramos uma família.  Uma família que se reunia todas as noites, como todas as famílias deveriam fazer, e perguntávamos uns aos outros "Como é que foi o teu dia?  Como é que te estás a aguentar?".  E, sou sincera, muitas vezes o meu dia tinha sido mau...  Muito mau...  Porque eu sou aquela pessoa chata que tem a mania de estar e tocar nas pessoas que ama.  A amiga que nos aperta até nos tirar o ar e que nos faz arrepender de fazê-la gostar tanto de nós.  A filha que, mesmo a caminho dos 41, ainda se senta no colo dos pais, quer eles queiram quer não.  A vizinha que pára a falar para saber como estão.  A que, por vezes, procura o isolamento voluntário, mas que não está a saber lidar tão bem com o obrigatório.  
A verdade é que sinto falta...  Tenho os braços cansados dos abraços que não dou.  Dói-me a ausência de quem está a dois metros de distância.  Mas à noite, com o Bicho, tudo se tornava mais fácil.  Porque eles (todos eles!), nos recordavam que uma das características do ser humano é saber rir!  De tudo!  Da desgraça da Paula ao ridículo dos outros (cabelo Donut, anyone?).  Rir do sexo e da falta dele (força aí, Markl!).  Rir do nonsense e do politicamente correcto.  Mas, especialmente e mais importante, rir de nós!  Porque todos nós éramos o Bicho, e por isso é que a família cada vez era maior.  E terminar a noite embalada pelo piano do Filipe Melo dava-me a certeza, como dizia o Bruno no fim, que ia ficar tudo bem.

Sei que já tudo foi dito do fenómeno que este Bicho foi e de como foi um ponto crucial de viragem na cultura em Portugal, precisamente numa altura em que esta parece levar machadada atrás de machadada.  Não preciso de repetir a importância, genialidade e generosidade que foi este Bicho.  Só preciso que alguém me diga...  O que é que eu vou fazer esta noite?

Morre Luís Sepúlveda, vítima da Covid-19

Abril 16, 2020

RCurvacheiro

IMG_20200416_105710.jpg

 

O autor chileno, Luis Sepúlveda, morreu hoje, aos 70 anos, vítima da Covid-19 que lhe fora diagnosticada a 27 de Fevereiro.

Um homem que toda a sua carreira escreveu sobre o amor das coisas simples e das interligações humanas (ou, por vezes, animais), parte às mãos de uma doença que nos rouba isso mesmo.  

Deixo aqui a minha leitura de História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, para que mantenhamos a esperança de que a simplicidade, amor e inter-ajuda voltem a fazer parte diária das nossas vidas.

Por ter trabalhado 12 anos numa livraria, perdi a conta às vezes em que me abordaram para pedir este livro... Por norma adolescentes (muitas das vezes envergonhados) ou os seus pais (sem paciência para andar às voltas na loja à procura do livro que o professor mandou os filhos lerem). Sim, é um dos temidos "livros do plano nacional de leitura". Devo admitir que, até no pedirem tantas vezes, nunca me sentira particularmente tentada a debruçar-me na sua leitura. Mas... Foi então que recebemos uma nova edição! Mais cara, é verdade, mas também mais apetecível, muito graças às ilustrações de Sabine Wilharm. Li, então, a sinopse no verso da capa e decidi-me... Ia mergulhar no mundo do gato Zorbas e acompanhá-lo na aventura de ensinar uma gaivotinha a voar.

 

Zorbas, o gato mencionado no título, é, como a sua descrição nos relembra frequentemente durante a história, "um gato grande, preto e gordo" que, tendo tido a sorte de ser salvo por um garoto quando mais não era que um filhote, vive uma vida tranquila e priveligiada numa casa no porto de Hamburgo. Um dia é surpreendido pela aterragem forçada de uma gaivota na varanda onde passa as tardes. A gaivota, tendo sido apanhada por uma maré de petróleo, usara as últimas forças para ali chegar. Consciente que o seu fim está próximo pede auxílio a Zorbas: vai usar o seu último fôlego para por um ovo, mas para isso precisa da ajuda do gato. As três promessas que lhe pede para cumprir sâo: 1º não comer o ovo, 2º cuidar e proteger o ovo até ao nascimento da sua filha e 3º ensinar a cria a voar. Comovido com a situação da gaivota Zorbas aceita cumprir os três pedidos antes de abandonar a gaivota para ir à procura de quem o possa ajudar a salvá-la da morte eminente. Mas, ao regressar com os seus três companheiros (que com ele fazem lembrar a relação de D'Artagnan e os Três Mosqueteiros de Dumas, com o seu mote de "Um por Todos e Todos por Um), os gatos Secretário, Colonello e Sabetudo (aos quais, mais tarde, se irá juntar Barlavento, um gato do mar) encontra o corpo da gaivota sem vida e um belo ovo branco com pintas azuis perto do corpo. A partir desse momento Zorbas e os seus companheiros, que se recusam a abandoná-lo pois a promessa de um gato do porto compromete todos os gatos do porto, têm entre mãos uma tarefa que, mais que estranha, é-lhes assustadora pois não só não sabem nada de pássaros como não fazem ideia de como se voa. A única ferramenta de que dispõem é da amada enciclopédia de Sabetudo. Mas será possível aprender a voar a partir de livros? E se não, como pode um gato ensinar a voar uma pequena gaivota? Será esse o motivo que os levará a quebrar, excepcionalmente, o tabu?

 

Li esta pequena fábula, pois é disso que se trata - uma fábula dos tempos modernos - num fôlego e redescobri a doçura e as lições contidas nos simples contos. A moral é pura e presente durante todo o relato (a relação e inter-ajuda entre "pessoas" diferentes que, sem olhar às diferenças, se apoiam na luta constante para a obtenção de sonhos particulares e/ou comuns), mas nada a sumariza melhor que a frase proferida por Zorbas na penúltima página: "só voa quem se atreve a fazê-lo!"

Inconsistências do fim dos tempos

Abril 02, 2020

RCurvacheiro

artista.png

 

Ontem estava, como muitos milhares de portugueses, a ver o directo do Corpo Dormente, e o Bruno Nogueira falava com o Nuno Lopes sobre como vai ser difícil as pessoas ganharem confiança, após estes períodos conturbados, para voltar a encher teatros e salas de espectáculo.  Aceitarem, de bom grado e sem receio, estar fechadas, numa sala lotada, em proximidade forçada com uma quantidade de estranhos.
E a verdade é que, se a vida, nos tempos normais, já é uma incerteza constante para quem vive das artes, esta será provavelmente a pior altura para se ter deixado seduzir pelo chamamento das musas.
Neste momento o País está parado, nós estamos fechados, a loucura e depressão está a instalar-se aos poucos no nosso quotidiano.  Mas, e há sempre uma luz ao fundo do túnel!, todos aguardamos o dia em que podemos retomar as nossas rotinas.  Acordar cedo, reclamar do chefe, pagar demasiado por um almoço de trabalho, lançar rumores infundados sobre os colegas, sair e passar na esplanada a caminho de casa para beber uma cerveja com um amigo que nos atura há anos, e passar o resto do serão alapados no sofá a soltar bitaites nas redes sociais.  Mas a conversa do Corpo Dormente ontem fez-me ver que há pessoas para quem, na verdade, essa rotina será roubada mesmo depois de terminada a sentença.
E o mais irónico (e injusto) é...  São essas as pessoas que nos estão a impedir, neste momento, de entrar na espiral descendente de auto-destruição mental que estamos no limite de cair. 
Porque é a música que nos faz aguentar o confinamento, e os músicos que, de casa, nos vão embalando em directos como se fosse perfeitamente normal tocar um concerto para um ecrã onde vão surgindo inúmeros nomes fictícios numa lista crescente de pessoas em pijama que se agarram a nós para acreditar que "vai ficar tudo bem", que nos vão levar a bom porto!
Porque são os livros, e os autores que nos lêem poesia e passagens das suas obras, à laia de uma "história para adormecer" de tempos apocalípticos, renunciando ao anonimato social que é tão apelativo para tantos deles, que nos fazem manter a convicção que não estamos mortos emocionalmente e que as palavras ainda nos tocam ainda que os amigos e a família não o façam.
Porque são os filmes, séries, stand-up, teatro, que nos mantém atentos a outras realidades que não a nossa, e os actores que lhes vestem a pele que nos levam para lá das paredes da nossa casa, para um Mundo que continua enorme e se revela grandioso nos pormenores mais magistralmente imperceptíveis.
Porque é a dança que nos recorda a liberdade que trazemos ansiosa e dolorosamente expectante no peito, à espera de nos ser restituída.
E são estas pessoas, que nos vão mantendo em contacto com a nossa humanidade, que têm o futuro mais incerto no meio disto tudo.  São eles que nos guiam pelos escombros, de sorriso nos lábios, mas com a cabeça cheia de receios e dúvidas.
E vejo nisto uma balança tão mal equilibrada.
Porque eu sei o quanto estão a fazer por mim...  Mas não tenho a certeza de quando poderei retribuir o favor...

Cansaço

Março 19, 2020

RCurvacheiro

IMG_20200318_142345.jpg

 

Cansaço

Anaïs Nin

"Sou a mulher mais cansada do mundo. Fico cansada assim que me levanto. A vida requer um esforço de que me sinto incapaz. Por favor passa-me esse livro pesado. Preciso de pôr qualquer coisa pesada sobre a cabeça. Necessito constantemente de pôr os meus pés sob almofadas para que consiga continuar na terra. De outro modo sinto-me partir, partir a uma velocidade tremenda, tão leve me sinto. Sei que estou morta. Logo que pronuncio uma frase a sinceridade morre e torna-se numa mentira cuja frieza me gela. Não me digas nada, vejo que me entendes, mas tenho receio dessa compreensão, tenho medo de encontrar alguém semelhante a mim e ao mesmo tempo desejo-o. Sinto-me tão definitivamente só, mas tenho tanto medo que o isolamento seja violado e eu não seja mais o cérebro e a lei do meu universo. Sinto-me no grande terror do teu entendimento, meio por que penetras no meu mundo; e que, sem véus, tenha então que partilhar o meu reino."

Dia Internacional da Mulher

Março 08, 2020

RCurvacheiro

IMG_20200308_075123.jpg

 

 

És uma hipócrita!
Gozas com quem comemora o Dia dos Namorados e o Halloween e depois fazes posts no Dia da Mulher! Não tens vergonha?

Não!

Tenho a sorte de ter nascido numa sociedade (algo) civilizada que pode fazer crer aos espectadores mais distraídos que este dia mais não é que um golpe publicitário destinado a entreter as massas. Mas não é!

Este é o dia (o único do ano!) em que pessoas em todo o Mundo param e, à semelhança de alguém que se esqueceu de comprar açúcar na última ida ao supermercado, levam as mãos à cabeça e, surpreendidas, se recordam:

Espera... Há lugares no Mundo em que meninas ainda são vendidas como moeda de troca num negócio do qual nunca pediram para fazer parte?

O quê? Queres fazer-me crer que ainda há sítios no globo em que as raparigas não têm direito à educação?

Ablação clitoriana? Mutilação genital feminina? Retirar o prazer às mulheres sem o seu consentimento para que se reduzam ao seu papel reprodutivo? Nos dias de hoje? Certamente que não!

O que é que queres dizer com "as mulheres ganham em média menos 17% que os colegas do sexo masculino que exercem as mesmas funções? Isso não é justo!"

Pois não, não é!

E é por isso que vou continuar a fazer posts no Dia da Mulher!

Para vos lembrar que não queremos flores e bombons.

Queremos direitos e igualdade!

E não se esqueçam do açúcar quando forem às compras!

Tim Burton no Museu da Marioneta

Fevereiro 28, 2020

RCurvacheiro

Quem me conhece sabe que, para além dos livros, tenho uma paixão por música e cinema.  Resultado de uma educação culturalmente inclusiva, pela qual culpo os meus pais.

É, principalmente nestes três campos, que gasto a maior parte do meu dinheiro (aceitam-se ofertas!).  Demasiado, na verdade, segundo os pais culturalmente inclusivos.

E sim, sei que num mundo de piracia digital, sou bicho raro...  Ou "vintage"!

Um dos cineastas que me leva à ruína é o Tim Burton.

 

IMG_20200228_093935.jpg

 

Podem, por isso, imaginar a minha excitação quando soube que, a partir de Fevereiro, ia estar patente uma exposição baseada na animação do mestre, no Museu da Marioneta, em Lisboa.  E pela módica quantia de entrada de 2€.

Liguei logo à minha Soninha que, como eu, gosta de palmilhar Museus e exposições.  E, de caminho, desafiámos a Marina, apaixonada por arte, ilustração e cinema.

E bem que, esta semana, precisava do bem que me fazem e dos risos fáceis que me arrancam da alma!  (Friends are the best therapy!)

 

IMG_20200227_162203.jpg

 

E, depois de me deleitar com a genialidade pormenorizada de Tim Burton, de me rir com amigas, de me agradar com a simpatia natural do pessoal do Museu da Marioneta, só posso recomendar a todo e qualquer nerd do cinema, arte, animação, ilustração ou, simplesmente, da vida, a aproveitar para visitar esta exposição. (Se quiserem aproveitar para conhecer todo o museu, o bilhete combinado para adultos fica a 6 euros).

 

IMG_20200228_090052_656.jpg

 

"Ten fingers, ten toes,
He had plumbing and sight.
He could hear, he could feel,
But normal?
Not quite.
This unnatural birth, this canker, this blight,
Was the start and the end and the sum of their plight.
(...)
Not knowing what to name him,
They just called him Sam,
Or, sometimes,
"That thing that looks like a clam."
Everyone wondered, but no one could tell,
When would young Oyster Boy come out of his shell?"

 

E, claro...  Ela!

Perfeita!

 

IMG_20200227_113833_365.jpg

 

Até 19 de Abril.

De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
(Últimas admissões: 17h30)

Museu da Marioneta
Convento das Bernardas, 146 Lisboa
Coordenadas GPS: Latitude = 38.707917,  Longitude = -9.15611

Velhas árvores - Sintra

Fevereiro 26, 2020

RCurvacheiro

FB_IMG_1582702611475.jpg

 

Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac (não o dos Santos e Pecadores), in "Poesias"

Let's talk about sex... No feminino

Fevereiro 08, 2020

RCurvacheiro

IMG_20200207_081207.jpg

Há uns meses, pouco depois de ter lido (e adorado) a biografia ilustrada da Frida Khalo pela Maria Hesse, uma amiga enviou-me por mensagem a capa de "El Placer", o livro da autora dedicado ao universo do prazer sexual feminino.  Como na altura ainda trabalhava na livraria, corri a perguntar à representante da editora se já havia data prevista para a edição portuguesa.  Não se sabia...  Há pouco mais de uma semana vi na net que seria publicada este mês, no dia 4.  De imediato a tratei de comprar.  Já a li.

Antes de mais, há algo que devem saber sobre mim:

Sou, cronicamente, tímida.
Tremo por tudo e por nada.  Em miúda bastava que me perguntassem as horas para que corasse até à raiz dos cabelos.  Em contexto social, só ao fim de dias, semanas ou meses (mesmo anos) é que me sinto à vontade num grupo.  
Ainda assim, sempre me senti perfeitamente confortável com o tema da sexualidade ou com a aceitação pessoal.  Não porque me considere uma estampa de mulher, que não sou!, mas porque tive a sorte de ser criada por pais que não fazem tabu de assuntos perfeitamente normais.  E, ao contrário do que muitos parecem ainda acreditar, a sexualidade feminina é algo completamente normal.  E, quanto mais cedo os homens o perceberem e as mulheres o reinvindicarem, melhor será para todos!

Maria Hesse, nesta obra, vai beber à sua própria experiência sexual e relação com o seu corpo, bem como ao exemplo de mulheres ao longo dos tempos (as "bruxas", as "prostitutas", as "impuras", as "perversas", as que a sociedade apelidou amiúde para as castigar pela sua insolente vontade de direito ao prazer), para fazer uma viagem pelo universo sexual feminino, pela aceitação dos vários tipos de corpo, pela desmistificação de preconceitos e ideais inatingíveis.

E fá-lo de uma forma que não melindra ou assusta.  Que incentiva ao conhecimento próprio (e eu, que sou uma crente em que todas as mulheres se devem conhecer, verdadeiramente, assino em baixo...  e sim, sei que quando sugiro a amigas que peguem num espelho e se "conheçam", a grande maioria não gosta do que vê...  porque nunca ninguém lhes disse que não há nada de errado nisso e que é uma mais valia para elas e futuros parceiros que o façam...  já os homens parecem perfeitamente contentes e orgulhosos com o que contribuem para a relação apesar de, argumento eu em jeito de picardia, também eles não terem muito com que se gabar em termos de aspecto...  mas estou a divagar!), que normaliza algo que, numa sociedade que já começa a aceitar as várias formas de sexualidade, ainda parece ser sussurrado e escondido: o direito da mulher ao sexo e ao prazer!

Talvez a "eu de 20 anos", insegura e receosa de julgamento , não falasse tão abertamente deste livro.  Mas a mulher de 40 que sou, fala na esperança de que alguma de 20, ainda a descobrir-se, leia este blog e perceba:  não ha nada de errado contigo, só tu te conheces e sabes do que gostas, tens direito a pedi-lo e se não o quiseres também tens direito a essa opção!  Não sucumbas a normas sociais! 

E lê este livro!

 

IMG_20200208_002626.jpg

 

 

 

Ler até às badaladas

Dezembro 30, 2019

RCurvacheiro

Não, não estou a sugerir que ignorem família e amigos em detrimento dos tomos poeirentos da biblioteca.  Só que, quem sabe, é nestes últimos momentos do ano que vão ser agradavelmente surpreendidos.  Eu sei que eu fui!

IMG_20191230_171751_111.jpg

Quando peguei no "Pássaros na Boca" da Samanta Schweblin não tinha grandes expectativas.  Era apenas uma escolha motivada pelo meu desejo de colecionar os livros da editora Elsinore e pelo facto de ter gostado, dentro da normalidade, do seu título "Distância de Segurança".  E, se este livro não me maravilhou, menos esperava que "Pássaros na Boca" o fizesse.  Afinal, é um livro de contos e eu não sou favorável a este género literário.  Se o conto é mau arrependo-me do tempo perdido a lê-lo.  Se é bom, por norma, desejo que o autor tivesse trabalhado a história num livro ao invés de um conto.

Há, no entanto, excepções à regra.  E esta é uma delas!

Os 18 contos contidos nestas 150 páginas são de uma mestria que satisfazem o apetite literário mais exigente ao mesmo tempo que abrem sucessivamente o apetite às histórias posteriores.

Seja a história de uma noiva abandonada, após o casamento, na berma da estrada e a deparar-se com centenas de outras mulheres que, com igual destino, se abatem sobre si como que numa versão do Walking Dead em vestidos brancos; seja no relato de um homem que, matando a mulher, vê o corpo desta em putrefacção a ser tratado como uma obra de arte colocada em palco para saciar a sede de violência das classes altas e intelectuais.  Seja no conto que dá o título ao livro, onde uma rapariga adolescente desabrocha às custas de uma dieta de pássaros vivos, que rouba a sanidade e tranquilidade aos seus pais; seja nas duas páginas de "A Perder a Velocidade", que chegam perfeitamente para desenhar o definhar de um homem-bala a perder velocidade até ao encontro inevitável com a morte.

É isso...

É um perfeito aglomerado de histórias surrealistas que trazem consigo o humor negro da autora argentina.

Quem diria que a última leitura de 2019 ia acabar por ser o meu livro do ano?

Recomendo!

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D